31.8.16

está liberado falar caralho

gozando nx boca dx locx dx vossx primx, padre,
aqui mesmo, na capelinha, tu que nem é um cara de caralhos, de bocas e de primxs
desde que você ampliou este lugar
botou essas maquininhas
está liberado até usar o cartão do cpf pra bater uma linha na mesa da cozinha
e isso nem sou euzinhx quem tá dizendo, padre
padre
eu odeio o senhor
e da maneira que o senhor coloca as coisas,
eu odeio o Senhor também
e olha que ele me visita toda noite
e me abençoa todinhx
os seus canais de televisão, assisto todos, padre
eu vejo o seu programa,
vim aqui para participar
fazermos o nosso programinha
padre e programa são coisas que eu processo muito bem
e venho de texto decorado
com essa platéia maravilhosa
crente, temente
vivendo isso com a gente
te trouxe até um presente
ao vivo, pro brasil, padre
pega esse livro assim
vamos realizar a fantasia desse povo fanático
porque um marco democrático deve sempre ser celebrado
pega esse livro e segura ele enrolado
mete no meu cu toda a constituição
minha intenção era cagar no faustão
mas só consegui horário nisso aqui
então vem, padre
me escomunga,
me exorcisa,
me mostra teu descarrego
eu desafio tua metafísica
quero ver me exorcisar em rede nacional
aqui, ao vivo, agora, padre
passagem ritual da constituição anal
e não vale me matar
eu quero ver a edição final.

















2.8.16

ah, o netflix

hj salvei meia dúzia de listas
melhores filmes netflix brasil
franceses
ontem assisti a lista de schindler
nem sabia que eu tinha tanto tempo pra ver um filme
mas n tenho interesse em 'terror', 'comedias romanticas'
estou tendo dificuldades de entender certas questões de cânone
estamos na era da coexistência de cânones alternativos
mas tb na era em que grana compra o direito de reunir e difundir idéias
valores
tipo o netflix.
mas toda vez que eu fico no beco dos livros eu fico retardado, então.
gostaria de me demorar nessa conversa tanto quanto possível em livrarias
girar em 360 graus no bookshops
câmera olho de peixe
clipe da bjork

falando em islandia
falemos de valter hugo mãe
tive a satisfação de ler a máquina de fazer espanhóis há alguns meses, e achei uma maravilha (claro que a experiência cosac naify nem sempre salva o conteúdo, sempre ajuda o leitor) cheia de coisas fascinantes como por exemplo a eterna esquisitisse trancona da literatura portuguesa. ele pontua o livro saramagicamente, e ainda por cima não usa maiúsculas, criando um vortex de sintasse desimportantemente poético. para um plot tão monótono¹ (notas de rodapé revelam spoiler) a história é excelentemente bem contada, ainda mais da perspectiva da protagonista, profundamente silente (logo humano poético) e reclamando um assunto² tão visceral (logo humano, biológico). enfim, bem impressionante. narrada em prosa (do tipo cuidadosamente pensada pra ter som, voltas tonais e vocais, ritmos de uma prosódia que diz muito só pelo tom da voz), a obra tem uma diagramação que está mais para a liberdade do texto poético, respeitando a margem, na verdade raramente chegando-lhe a tocar. o que valter hugo mãe faz é emprestar a voz amadurecida da personagem central ao silêncio de sua poesia mental.
coisa que ele passou longe de fazer no desumanização. acabo de finalmente findar a primeira parte (com mais crença do que paciência). o livro faz parte da mesma série. se eu fosse falar disso seria nas notas em rodapé. mas não falarei. talvez quando tiver lido todos.


fiquei pensando
o brasil e outros países em que se tolera a coexistência de marginalizados e elitizados é tipo um nazismo que deu certo por meio da propaganda e maquiagem
como se no nazismo o fascismo tivesse falhado como teste
mas tivesse evoluído de maneira mais discreta
do que estender o braço para campos tomados por pessoas armadas enfileiradas
uma culturalização do preconceito
algo que nos atrofiou
nossa própria india
pelo menos até agora
o gigante acordou
levará horas pra sair da cama
só mais 5 minutinhos

fisiologia

preciso ter com um nutricionista
pois tenho me alimentado de poesia
tenho me deliciado
devorado o silêncio
comovido pela apresentação do prato
o amargo retrogosto
da dieta sadia

sob um céu de
oxítonas
poesia é fazer
uma árvore morta luzir
e uma estrela morrer
e depois calar no vácuo da pausa pra um cigarro